Quarta-feira, 30 de Maio de 2007
#4 Não conseguia dormir
Não conseguia dormir. Aquela insónia vinha-me perseguindo há meses, talvez há anos. Revolvia a cama numa luta desigual contra os lençóis e contra o frio, contra a imagem da mulher que desocupara esta casa e tudo o resto. É madrugada de sábado e ali estou eu a batalhar, a querer desligar da realidade, a pedir pelo amor de deus por um pouco de repouso. Sinto-me um farrapo, uma peça gasta que se soltou da engrenagem e que foi substituída por outra mais recente, mais funcional, que precisa de menos manutenção. Este sono que não vem. Levanto-me quase a cambalear, pego num livro de poesia ainda retido na mesa-de-cabeceira e dirijo-me à cozinha. Abro o frigorífico. Tiro o pacote de leite. Lá fora há pássaros que acordam. Dois ou três biscoitos amanteigados povoam o balcão de granito. Viro-lhes as costas e, entretanto, surge-me a companhia de um poeta esquecido pelas modas contemporâneas. Levo a caneca de leite à boca. O poeta fala-me do mar, da pacificidade rebelde do mar e da beleza resistente da natureza. Apetece-me responder-lhe com o excesso de sal depositado na cama. Ele insiste, sem reparar que estou farto de poetas. Volto ao quarto. Enfio o livro na última gaveta da mesa-de-cabeceira. Visto uma muda de roupa lavada e deixo-me ficar, por uns segundos, encostado à ombreira da janela – uma nuvem negra compacta vai engolindo a paisagem citadina.
Acordo da insónia ao sair de casa, ao caminhar até ao carro, ao sentir o subtil impacto da chuva. Por vezes, ao final da tarde, quando a luminosidade decrescente se transformava num ténue manto de tons laranja, quando os únicos sons audíveis eram harmoniosos e apaziguadores, quando as árvores se agitavam ao longo das avenidas e dos jardins numa sincronia musical, quando a própria presença humana parecia isenta desta crónica sucessão de equívocos, parecia-me a mim incrível e quase inverosímil o milagre da existência. E, então, era fácil falar em todos os tempos verbais.
Mas agora é madrugada e chove. O carro custa a pegar. Penso em voltar a casa. O carro responde não vás, vamos ver o mar. A cidade permanece ainda em silêncio, envolta numa nuvem compacta. Apenas as vozes crepusculares e quase imperceptíveis de alguns poetas se arrastam pelos becos antigos. Como num inventário contabilístico, vão discriminando todas as maravilhas do mundo, todas as agonias dos mortais, todos os ecos de vozes que se alastram pelo universo.
Quero desligar. A realidade. Encontro-me numa encruzilhada, com o carro a trabalhar ao ralenti. Os pássaros acordam e voltam a adormecer. Olho em redor e qualquer direcção possível representa a sua própria antítese.
Decido. Vamos ver o mar. Afogar qualquer coisa.
#3 O pessoal da bola
O pessoal da bola costumava ir para trás da Capela do Espírito Santo fumar uns cigarros depois dos treinos de futebol. Logo no início da temporada, o Mister ainda tentou alertar para os malefícios do tabaco, principalmente para “jovens desportistas com um universo de conquistas pela frente”. Constou que a sua palestra fora inspirada por um delator de seu nome Tiago, a quem, alguns anos mais tarde, passei a tratar por Yago, em homenagem a uma das mais complexas personagens de Shakespeare. Este jovem promissor, agraciado pelo poder divino da língua solta e por um suposto amor à literatura, dissera ao ouvido do Mister que o Tó Casinhas dava umas passas na escola, influenciando negativamente todos os outros alunos.
O que o Mister desconhecia era o facto de o Tó Casinhas se ter transformado no nosso mentor da passa e de ter criado o ritual de terças e quintas à noite atrás da Capela.
Na nossa aldeia não havia, então, um leque alargado de distracções para rapazes de catorze anos ansiosos por conhecer tudo o que havia para lá do horizonte. Portanto, circunscritos aos contornos geográficos de uma terra quase abandonada, íamos inventado formas de passar o tempo e de, simultaneamente, manifestar a nossa rebeldia. À socapa, fazíamos algo censurado por toda a malta graúda: pelas mães, pelos professores, pelos tios, pelas avós, pelo primeiro-ministro. Nós, atestados de revolta pela pasmaceira e repúdio pelas leis da Brigada Ditatorial dos Mais Velhos, fumávamos cigarros e depois íamos roubar nêsperas ou figos ou laranjas ou maçãs – qualquer coisa que aumentasse a adrenalina, invariavelmente tão em baixo quanto os indicadores económicos do nosso país.
Naquela noite, o Tó Casinhas, depois de me ensinar a travar como deve ser, ou seja, sem engolir o fumo (erro este cometido por um rol infindável de principiantes), tirou um pequeno embrulho do bolso das calças e bateu-me com o cotovelo no braço:
– Gabriel, olha.
– O quê? – perguntei eu, languidamente, enquanto tentava descascar uma laranja para afastar a irritação na garganta.
– Olha. Vê lá isto. Não queria mostrar-te à frente dos outros. São uns cabrões...
Naquela noite, enquanto um número incerto de estrelas morria no céu, fumei pela primeira vez um cigarro diferente dos outros e, sem o conseguir justificar, chorei a amarga distância entre mim e os horizontes longínquos.
#2 Quando a noite
Quando a noite, solitária como sempre, me encontra no reduto deste lar a revolver papeis e a formular teorias, não consigo evitar a lenta, dolorosa invasão da memória. Olho a rua e um rasgo elástico no tempo troca os contornos do cenário lunar.
Está uma agradável noite de final de Primavera. Quente. E uma pequena brisa desliza pela janela entreaberta, baloiça nos cortinados e embate suavemente no corpo inerte sobre a cama.
É o meu corpo. Devo ser eu, adormecido.
Por esta altura deve estar a minha irmã, Margarida, mais uma vez barricada na casa de banho. Mas isso não o devo saber, visto estar a dormir. Devem ser dez ou onze da noite. Durmo porque tenho um importante teste de História pela manhã e quero acordar de cabeça fresca. A minha mãe apenas regressará do seu trabalho como empregada de limpeza por volta da meia-noite. Durante o dia, trabalha numa fábrica onde manufacturam luvas, daquelas em pele, iguais às dos mafiosos que vemos nos filmes, e à noite entra na carrinha do Sr. António e lá vai ela para a cidade, limpar os escritórios da gente importante. Isto porque o meu pai decidiu, em determinado momento, passar de morto-vivo a fantasma omnipresente.
A minha irmã está barricada na casa de banho. Em silêncio. Eu estou a dormir. Uma calma contida parece ainda percorrer os pequenos compartimentos das nossas jovens vidas. Um dia, a minha mãe chegará mais cedo do trabalho e a minha irmã fugirá de casa.
#1 O meu avô e os inglezes
Eu era uma pequena criança sardenta quando o meu avô ainda conduzia e me levava no seu Renault 12 aos encontros de antigos colegas do Exército. Na entrada do complexo havia uma placa enorme com uma inscrição
Base Militar
Military Base
e eu, que começara há muito pouco tempo a juntar as letras e a formar palavras, perguntei-lhe um dia o porquê daquelas duas da placa enorme estarem repetidas numa ordem inversa e uma delas estar mal escrita.
O meu avô respondeu-me com a sua voz grave:
– Estão escritas em Português e em Inglês, mas os ingleses dizem tudo ao contrário.
Achei aquilo muito estranho e ele, ao ver o meu ar intrigado, repetiu:
– Os ingleses escrevem de uma forma diferente. Dizem tudo ao contrário, mesmo as coisas mais simples. Tu, por exemplo, na língua deles és Machado Gabriel e não Gabriel Machado.
Ri bastante com aquela descoberta curiosa e escrevi no meu caderno quadriculado
Os inglezes são tôlos
mas o meu avô abanou a cabeça em reprovação. Os ingleses eram, afinal, seres enormes com uma pele muito branca e muito sardentos. Tinham, também, bastante mais dinheiro do que nós e umas máquinas avançadas que faziam o trabalho mais duro por eles.
Quando saímos do complexo e voltei a olhar para a placa, o meu avô acrescentou com um ligeiro sorriso que só mais tarde compreendi:
– Tu deves ser um inglês em miniatura...
Acabei por nunca ver nenhum daqueles gigantes nas visitas que fizemos à Base Militar e, mesmo quando alguns deles passaram pelo café central e se gerou a maior confusão, com copos partidos e gente hospitalizada, perdi a maior aventura da minha aldeia, porque o sarampo me obrigara a ficar de cama. Mesmo assim, cresci a pensar nos ingleses – figuras míticas e fortes – e a divertir-me a reconstruir a linguagem
água de copo um quero, Mãe.
Cresci a compor frases do princípio para o fim e do fim para o princípio, a ver as palavras e as coisas de diferentes perspectivas.
Um dia, encontrei finalmente um grupo de ingleses, mas eles não eram muito diferentes de nós, nem sequer mais altos ou mais fortes do que eu, e, tal como me começavam a faltar as sardas na cara, faltava também alguma magia naquele aglomerado de corpos. Aborreci-me profundamente com a imprecisão do meu avô – não existiam nem nunca tinham existido tais seres extraordinários.
Talvez por isso, ou talvez por me ter afastado gradualmente das minhas origens, nunca mais voltei a falar com o meu avô, e só mais tarde, quando já me pertenciam todas as máquinas de que precisava e o meu trabalho me tornara num elemento de referência nos meios académicos, só então me voltei a lembrar da conversa distante na Base Militar. Aquela conversa que gerara, num jovem coração, a expectativa e a ambição de ser mais forte, de chegar mais alto. Só nesse momento compreendi o sorriso do meu avô.
Entrei no carro e fiz o enorme percurso até ao seu encontro. Depois, falei-lhe um pouco sobre mim e sobre a minha vida – sobre os receios duradouros de quem vem da aldeia para a grande metrópole. Sentei-me no chão, como costumava fazer quando parávamos para descansar nos nossos longínquos passeios matinais, e estivemos ali durante horas: o meu avô ainda não muito velho e o miúdo que ainda não crescera.
Antes de voltar à minha cidade, escrevi na terra que ladeava a sua campa
life my throughout me guide voice your may.